
Um ataque aéreo russo contra uma antiga escola utilizada como centro de distribuição de ajuda humanitária deixou ao menos 31 mortos e cerca de 50 desaparecidos no sul da Ucrânia. O bombardeio ocorreu na segunda-feira (2), na vila de Komyshuvakha, na região de Zaporizhzhia. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou as forças russas de realizar um segundo ataque contra o abrigo onde moradores haviam buscado proteção após as primeiras explosões.
Nesta terça-feira (3), dezenas de socorristas, policiais e voluntários continuam trabalhando entre os escombros na tentativa de localizar sobreviventes. Segundo as autoridades ucranianas, quatro policiais e dois integrantes das equipes de resgate estão entre os mortos. Pelo menos outras cinco pessoas ficaram feridas.
A escola não era mais utilizada para atividades educacionais devido à proximidade com a linha de frente da guerra. O prédio funcionava como centro administrativo, abrigo e ponto de entrega de alimentos e outros materiais essenciais para os moradores que permaneceram na região.
O chefe interino da administração militar de Zaporizhzhia, Mykhailo Semikin, classificou o episódio como uma das maiores tragédias envolvendo civis na região desde o início da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022.
As autoridades decretaram três dias de luto, entre esta terça-feira (3) e quinta-feira (5), em homenagem às vítimas.
Segundo o presidente Volodymyr Zelensky, a escola foi atingida inicialmente quando moradores chegavam ao local para receber ajuda humanitária.
Após as primeiras explosões, parte das pessoas tentou se proteger em um abrigo subterrâneo reforçado, construído para resistir a ataques aéreos.
O presidente afirmou que as forças russas realizaram um segundo bombardeio, desta vez com outras nove bombas, atingindo diretamente o local onde os moradores estavam escondidos.
“Os ataques tiveram como alvo uma escola utilizada para fins humanitários: era lá que as pessoas recebiam ajuda humanitária. Após o primeiro bombardeio, houve um segundo ataque, com mais nove bombas, que atingiu especificamente o abrigo onde as pessoas haviam buscado proteção”, declarou Zelensky.
De acordo com as autoridades regionais, as bombas utilizadas tinham capacidade de penetrar estruturas reforçadas. A força das explosões provocou o desabamento de partes do abrigo e um incêndio.
O governo ucraniano afirma que os militares russos sabiam que a população utilizava o prédio para receber assistência humanitária.
A acusação de que o segundo ataque teve como alvo deliberado os civis que buscavam proteção ainda depende de apuração independente.
A estratégia descrita pelo governo ucraniano é conhecida internacionalmente como double tap, expressão utilizada quando um local é atingido novamente pouco depois de um primeiro ataque.
Esse tipo de operação pode colocar em risco pessoas que procuram sobreviventes, equipes de emergência e moradores que tentam prestar socorro.
De acordo com o direito internacional humanitário, ataques deliberados contra civis e profissionais de resgate protegidos pelas regras de guerra podem constituir crimes de guerra.
A avaliação jurídica depende das circunstâncias de cada ataque, incluindo a identificação dos alvos, a intenção dos responsáveis e o respeito aos princípios de distinção e proporcionalidade.
A Organização das Nações Unidas condenou os bombardeios em Komyshuvakha e destacou que os ataques atingiram pessoas que procuravam assistência humanitária, além de profissionais que respondiam à emergência.
A Rússia, por sua vez, afirmou que sua operação na região tinha como alvo unidades militares ucranianas. As alegações dos dois lados não puderam ser verificadas integralmente de forma independente.
O trabalho de busca continuou durante a manhã desta terça-feira, com equipes retirando destroços e tentando acessar as áreas subterrâneas da antiga escola.
Imagens divulgadas por serviços de emergência mostram estruturas destruídas, veículos danificados e profissionais transportando corpos retirados do local.
Segundo a administração regional, aproximadamente 50 pessoas ainda não haviam sido localizadas.
O número de vítimas pode aumentar à medida que as equipes avancem nas áreas mais atingidas do prédio.
A região de Zaporizhzhia está entre as áreas mais afetadas pela guerra. Parte de seu território é ocupada por forças russas, enquanto localidades próximas à linha de frente enfrentam bombardeios frequentes.

Além do bombardeio à escola, a Ucrânia sofreu uma nova ofensiva russa contra instalações civis e estruturas de energia durante a noite de segunda-feira (2) e a madrugada desta terça-feira (3).
Segundo Zelensky, a Rússia lançou 289 drones de ataque, 17 mísseis balísticos e 59 mísseis de cruzeiro contra diferentes regiões do país.
A ofensiva atingiu instalações de energia elétrica, prédios residenciais e unidades de saúde, provocando interrupções emergenciais no fornecimento de eletricidade.
Na região de Kharkiv, no nordeste ucraniano, pelo menos 62 pessoas ficaram feridas após ataques combinados de drones e mísseis.
Uma unidade de saúde no distrito de Nemyshlianskyi foi danificada, assim como edifícios residenciais e veículos. Mais de 200 pacientes precisaram ser transferidos para outros hospitais.
Na região de Dnipro, autoridades também registraram mortos e feridos após novos bombardeios russos. Instalações hospitalares foram atingidas, exigindo a transferência de pacientes.
Os ataques contra a infraestrutura energética aumentam a preocupação com o fornecimento de eletricidade e aquecimento à população, especialmente com a aproximação do inverno europeu.
Enquanto a Ucrânia denunciava os bombardeios, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter interceptado 856 drones ucranianos durante a noite.
Segundo o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, centenas de drones teriam sido lançados em direção à capital russa.
Na cidade de Yaroslavl, autoridades locais relataram que uma refinaria de petróleo foi atingida, deixando dois funcionários feridos e provocando danos à instalação.
Também foram registrados cortes de energia em partes da Crimeia, território ucraniano ocupado pela Rússia desde 2014.
Os números apresentados pelas autoridades russas não foram confirmados de maneira independente.
A nova onda de ataques ocorre em meio a esforços diplomáticos para retomar as negociações sobre o conflito.
Representantes da Ucrânia e da Rússia têm uma nova rodada de conversas prevista para 10 e 11 de novembro, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, com mediação dos Estados Unidos.
A ofensiva também aconteceu após o encerramento de uma trégua humanitária localizada, estabelecida para permitir a entrega de ajuda e a retirada de moradores de Oleshky, na região de Kherson.
O presidente ucraniano acusou Moscou de demonstrar falta de disposição para reduzir a violência enquanto as iniciativas diplomáticas avançam.
A comunidade internacional acompanha os desdobramentos dos ataques, especialmente diante das denúncias de bombardeios contra civis, profissionais de emergência e instalações humanitárias.
Em Komyshuvakha, as buscas continuam e o balanço de vítimas permanece sujeito a atualização. Com dezenas de desaparecidos, as equipes de resgate tentam encontrar sobreviventes enquanto as autoridades investigam as circunstâncias do bombardeio que destruiu o abrigo.