
O governo do Rio de Janeiro prepara novas fases da Operação Contenção, agora voltadas para os braços político e financeiro do Comando Vermelho (CV). A ação, deflagrada em 28 de outubro, deixou 121 mortos e entrou para a história como a mais letal já registrada no estado.
Segundo o secretário de Segurança Pública, Victor Santos, as investigações buscam rastrear movimentações financeiras e conexões da facção com empresários e políticos, a partir de relatórios já encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF). O governo fluminense afirma ter solicitado o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens ligados ao crime organizado.
Entre os nomes sob investigação estão empresários, políticos locais e agentes públicos suspeitos de intermediar contratos e investimentos para o CV. O caso de Tiego Raimundo dos Santos, ex-deputado estadual preso em setembro, é considerado um exemplo do alcance político da facção.
Cumprindo determinação do Supremo no âmbito da ADPF 635, o governo estadual elabora um plano de retomada de comunidades dominadas por facções, que deve ser entregue ao STF e ao Ministério Público até 20 de dezembro.
O projeto-piloto começará pela zona oeste da capital, abrangendo Jacarepaguá, Vargens, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes — regiões apontadas como de maior expansão do Comando Vermelho, após a perda de espaço das milícias.
Santos defende que o termo “ocupação” seja substituído por “retomada”, argumentando que não há efetivo nem orçamento para repetir o modelo das antigas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).
“Nenhum estado do Brasil tem condições de manter ocupações permanentes. Precisamos retomar o controle com inteligência e integração”, afirmou o secretário.
Ele também declarou que o orçamento atual da Segurança Pública não é suficiente para a execução plena do plano e defende recursos adicionais do Fundo Nacional de Segurança Pública.
A Operação Contenção segue dividindo opiniões entre os cariocas. Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 1º de dezembro, 57% dos moradores da capital e da região metropolitana consideram a operação um sucesso, sendo 38% de aprovação total e 18% parcial. Outros 39% classificaram a ação como fracasso, e 4% não souberam opinar.
Na esfera política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a operação como uma “matança desastrosa”, gerando reações no Congresso. Deputados da oposição acusaram o presidente de desrespeitar os policiais mortos na ação.
Enquanto o Rio de Janeiro planeja novas ações contra o crime organizado, projetos de segurança pública tramitam no Congresso Nacional, incluindo:
PEC da Segurança, que pretende constitucionalizar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp);
Lei Antifacção, que cria o crime de “organização criminosa qualificada”, com pena de até 30 anos;
Projeto que equipara facções a organizações terroristas, atualmente sob relatoria do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
As medidas são vistas como respostas diretas ao avanço das facções e ao impacto político e social da Operação Contenção.