
O quinto dia da COP30, nesta sexta-feira (14), começou com tensão em Belém. Indígenas Munduruku bloquearam o acesso principal à zona azul da conferência em protesto contra o Plano Nacional de Hidrovias e a Ferrogrão, ampliando as preocupações sobre segurança e logística que já haviam motivado uma carta dura enviada pela ONU ao governo brasileiro.
A mobilização dos Munduruku fechou a entrada principal logo no início da manhã e obrigou Exército e Força Nacional a redirecionarem o fluxo de participantes para outra portaria, onde houve revista manual e longas filas. O ato, pacífico, denunciava a falta de consulta prévia aos povos tradicionais e os impactos das obras sobre territórios indígenas. O bloqueio durou algumas horas e foi liberado após negociação.
O protesto ocorreu dois dias depois de a UNFCCC, órgão climático da ONU, enviar ao governo Lula um documento expressando preocupação com falhas estruturais da conferência — incluindo calor excessivo, alagamentos, vazamentos, dificuldades de acesso e vulnerabilidades de segurança. O alerta foi motivado especialmente por um episódio em que manifestantes quase entraram na zona restrita de negociações. O governo respondeu que reforçou equipes, ampliou climatização e ajustou a infraestrutura no parque da COP.
Após a ação desta sexta, lideranças Munduruku foram recebidas pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e pelas ministras Sônia Guajajara e Marina Silva. O grupo entregou documentos pedindo a revogação do decreto das hidrovias, o cancelamento da Ferrogrão e avanço na demarcação de terras indígenas. As lideranças mantêm a cobrança por um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Enquanto os protestos repercutiam do lado de fora, o debate político dentro da COP ganhou força com a fala da vice-presidente da Colômbia, Francia Márquez. Ela acusou a ONU de praticar “racismo ambiental” ao marginalizar povos negros e indígenas das decisões climáticas, apesar de serem os mais impactados pelos extremos do clima. As ministras Anielle Franco e Sônia Guajajara apoiaram a crítica e defenderam maior protagonismo desses grupos nas negociações.
O quarto dia da conferência já havia sido marcado por outra frente de pressão: o anúncio de que as delegações internacionais estão menores que as da edição anterior, no Azerbaijão. União Europeia, China e vários países em desenvolvimento enxugaram suas equipes, movimento atribuído a cortes de custos e a decisões políticas internas, como a ausência de representantes oficiais dos Estados Unidos.
Outro tema que ganhou corpo nas discussões é a inteligência artificial. A tecnologia aparece tanto como ameaça — devido ao alto consumo de energia e água dos data centers — quanto como aliada para monitoramento ambiental, previsão de eventos extremos e combate às emissões. Nesta semana, a ONU lançou a AI Climate Academy, iniciativa para capacitar países em desenvolvimento no uso da IA aplicada ao clima.
Com protestos, cobranças da ONU e debates cada vez mais politizados, a COP30 segue em Belém sob pressão por avanços concretos nas negociações climáticas. Lideranças indígenas, governos e organismos internacionais reforçam que decisões da conferência precisam refletir tanto a urgência ambiental quanto a participação efetiva das populações mais vulneráveis.