
O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes procurou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao menos quatro vezes para tratar da situação do Banco Master, segundo relatos feitos por seis fontes distintas ao longo das últimas semanas. O blog da jornalista Malu Gaspar mostrou que as abordagens teriam ocorrido por telefone e também em um encontro presencial, em meio às discussões internas do BC sobre a venda do banco e a possibilidade de intervenção.
De acordo com os relatos, Moraes buscou informações sobre o andamento da tentativa de venda do Master ao BRB e teria pedido que a operação fosse aprovada pela autoridade monetária. À época, o negócio já enfrentava resistência técnica dentro do Banco Central, em razão de indícios de irregularidades.
Segundo integrantes do Banco Central, o ministro fez pelo menos três ligações para acompanhar o processo e, em julho, solicitou uma reunião presencial com Galípolo. Em uma dessas conversas, Moraes teria afirmado que “gostava” de Daniel Vorcaro, controlador do Master, e sustentado que o banco vinha sendo alvo de resistência por disputar espaço com grandes instituições financeiras.
Ainda conforme os relatos, Galípolo respondeu que técnicos do BC haviam identificado fraudes no repasse de R$ 12,2 bilhões em créditos do Master ao BRB. Diante disso, Moraes teria reconhecido que, comprovada a fraude, a operação não poderia ser autorizada.
Em 18 de novembro, no mesmo dia em que a Polícia Federal prendeu Vorcaro e outros seis executivos, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado Master.
Procurados, Alexandre de Moraes e Gabriel Galípolo não se manifestaram.
A atuação de Moraes ganhou novo peso após a revelação de que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, mantinha contrato com o Banco Master. O acordo previa o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais por 36 meses, a partir de janeiro de 2024, o que poderia render cerca de R$ 130 milhões até 2027.
O contrato estabelecia que o escritório Barci de Moraes Associados representaria os interesses do banco e de Daniel Vorcaro junto ao Banco Central, Receita Federal, Cade e Congresso Nacional. No entanto, informações obtidas via Lei de Acesso à Informação indicam que nenhuma dessas instituições recebeu pedidos formais, reuniões ou petições do escritório em favor do Master.
Mensagens encontradas no celular de Vorcaro, apreendido pela PF, indicariam que os pagamentos ao escritório eram tratados como prioridade absoluta.
Além do contrato com o Master, Viviane Barci atua em ao menos 31 processos no Supremo Tribunal Federal, defendendo grandes grupos privados dos setores de saúde e educação, como a Hapvida e o grupo SEB, o maior conglomerado educacional do país. Desses processos, 22 começaram a tramitar após Alexandre de Moraes assumir como ministro do STF, em 2017.
Não há impedimento legal para que familiares de ministros atuem no tribunal, mas magistrados não podem julgar causas que envolvam parentes. Procurados, o STF e o escritório Barci de Moraes não comentaram.
Após o caso chegar ao Supremo, o ministro Dias Toffoli avocou a competência para conduzir as investigações, decretou sigilo total e concedeu 30 dias para a Polícia Federal realizar oitivas, sob supervisão direta de seu gabinete. Técnicos do Banco Central relataram apreensão com a possibilidade de depor, temendo intimidações.
Em coletiva de fim de ano, Galípolo afirmou que o Banco Central está à disposição do STF para prestar esclarecimentos e ressaltou que todas as ações, reuniões e comunicações sobre o Master foram formalmente documentadas, como forma de blindagem institucional diante das pressões sofridas.
Na sexta-feira (19), o ministro do Tribunal de Contas da União Jonathan de Jesus determinou que o Banco Central apresente, em até 72 horas, explicações sobre a liquidação do Banco Master. A decisão foi tomada por medida cautelar, no âmbito de um processo que apura possível omissão da autoridade monetária.
A iniciativa gerou estranheza entre especialistas, já que o TCU não costuma atuar em transações entre instituições privadas do sistema financeiro.
Internamente, o caso é tratado como um dos episódios de maior pressão política já enfrentados por técnicos do Banco Central, segundo relatos feitos à Polícia Federal e ao Ministério Público ao longo das investigações.