
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou nesta segunda-feira (5) que uma eventual ação militar dos Estados Unidos contra um país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) representaria, na prática, o colapso da aliança militar criada após a Segunda Guerra Mundial.
A declaração foi uma resposta direta às reiteradas falas do presidente americano Donald Trump, que voltou a defender a anexação da Groenlândia, território autônomo dinamarquês localizado no Ártico.
As preocupações ganharam força após a recente intervenção militar americana na Venezuela, que aumentou o receio de que Washington esteja disposto a empregar força para impor seus interesses estratégicos.
A Groenlândia, embora faça parte do Reino da Dinamarca, possui ampla autonomia política e abriga recursos minerais ainda pouco explorados, além de ocupar uma posição geográfica considerada estratégica em rotas militares e de vigilância no Atlântico Norte e no Ártico.
No domingo (4), Trump voltou a defender publicamente a incorporação da Groenlândia ao território americano, ignorando manifestações contrárias de Copenhague e das autoridades locais.
“Precisamos da Groenlândia para garantir a segurança nacional. A Dinamarca não é capaz de fazer isso sozinha”, afirmou o presidente a jornalistas a bordo do Air Force One. Trump chegou a sugerir que o tema será tratado “em poucas semanas”.
Em entrevista à emissora dinamarquesa TV2, Frederiksen elevou o tom ao afirmar que um ataque a um aliado da Otan colocaria em risco toda a arquitetura de segurança construída desde 1945.
“Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da Otan, então tudo para. Inclusive a nossa Otan e o sistema de segurança que conhecemos”, declarou a premiê, acrescentando que o governo dinamarquês trabalha para impedir qualquer escalada do conflito.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, também se manifestou publicamente contra as declarações de Trump.
“Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação”, escreveu em uma publicação nas redes sociais.
A deputada groenlandesa Aaja Chemnitz, que representa a ilha no Parlamento dinamarquês, afirmou que o território precisa estar preparado “para todos os cenários”.
Líderes europeus manifestaram apoio à Dinamarca e à Groenlândia. A União Europeia reforçou que espera respeito à integridade territorial de seus Estados-membros e territórios associados.
A porta-voz da diplomacia europeia, Anitta Hipper, destacou que alianças estratégicas não podem ser ameaçadas por pressões unilaterais.

A Groenlândia abriga rotas cruciais para sistemas de alerta de mísseis balísticos e monitoramento naval. Os Estados Unidos já mantêm presença militar na ilha e demonstram interesse em ampliar estruturas de radar e vigilância na região, especialmente diante do aumento da atividade russa e chinesa no Ártico.
Apesar disso, dados de navegação indicam que a maior parte do tráfego chinês ocorre em outras áreas do Ártico, enquanto a movimentação russa se concentra principalmente ao longo de sua própria costa.
Pesquisas recentes indicam que a maioria da população groenlandesa apoia a independência no longo prazo, mas rejeita a anexação pelos Estados Unidos. Um levantamento divulgado em janeiro de 2025 mostrou que 85% dos habitantes são contrários à incorporação ao território americano, enquanto apenas 6% se declararam favoráveis.
A nomeação, por Trump, do governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial para a Groenlândia foi vista como novo gesto de pressão. A medida provocou reações imediatas da Dinamarca, que chegou a convocar o embaixador americano.
Autoridades dinamarquesas reiteram que a Groenlândia pertence aos groenlandeses e que qualquer mudança de status deve respeitar o direito internacional e a autodeterminação dos povos.