
A morte da americana Renee Nicole Good, de 37 anos, baleada por um agente do serviço de imigração dos Estados Unidos durante uma operação em Minneapolis, desencadeou uma nova onda de protestos e reacendeu o debate sobre o uso da força por agentes federais. O caso ocorreu na quarta-feira (7) e provocou manifestações em diversas cidades do país, além de reações duras de autoridades locais contra o governo federal.
Good foi atingida dentro do próprio carro durante uma ação do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega). Segundo familiares, ela tentava deixar o local quando foi alvejada. O episódio acontece em um contexto de intensificação das operações migratórias determinadas pelo presidente Donald Trump.

Na noite do crime, milhares de pessoas participaram de uma vigília com velas em Minneapolis. Protestos também foram registrados em Nova York, além de atos convocados em cidades como Chicago, Seattle, Phoenix, Orlando e Columbus.
Após os protestos iniciais, o governo federal determinou o envio de mais de cem agentes do CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras) para o estado de Minnesota. Segundo o jornal The New York Times, o destacamento deve permanecer na região ao menos até o fim de semana.
Moradores relataram que manifestações próximas ao local da morte foram reprimidas por agentes federais armados, que utilizaram munições químicas para dispersar a multidão. Nas últimas semanas, operações do ICE já vinham sendo intensificadas em Minneapolis e na vizinha Saint Paul, em meio a investigações envolvendo imigrantes somalis.
A versão oficial do governo federal sustenta que o agente agiu em legítima defesa. Trump afirmou que Good estava “agitada”, teria resistido à abordagem e avançado com o veículo contra o agente. O vice-presidente J. D. Vance reforçou essa narrativa ao classificar a vítima como “esquerdista desvairada” em publicação nas redes sociais.
Imagens divulgadas do momento do disparo, no entanto, não mostram o agente sendo atropelado ou ferido pelo veículo. O vídeo registra agentes mascarados se aproximando do carro parado, que então se afasta de ré, passando ao lado de um agente que dispara contra a motorista.
O FBI e o Departamento de Justiça inicialmente acompanhavam o caso, mas o Departamento de Investigação Criminal de Minnesota anunciou a retirada de sua participação. Em nota, o órgão afirmou não ter tido acesso pleno às provas e às informações necessárias para conduzir uma investigação independente conforme a legislação estadual.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, responsabilizou o presidente por aumentar as tensões na cidade. “Para o ICE, saiam de Minneapolis. Não queremos vocês aqui”, afirmou. Já o governador de Minnesota, Tim Walz, classificou a resposta federal como “terrorismo doméstico” e pediu que a população não acredite, segundo ele, na “máquina de propaganda” do governo.
Especialistas em direitos civis apontam que a responsabilização criminal do agente pode enfrentar obstáculos, já que agentes federais costumam ter imunidade em ações estaduais por atos praticados no exercício da função. A legislação de Minnesota autoriza o uso de força letal apenas diante de ameaça imediata de morte ou ferimentos graves.
Renee Nicole Good era mãe de três filhos, poeta premiada e formada em escrita criativa pela Universidade Old Dominion, em Norfolk. Ela havia recebido o Prêmio da Academia de Poetas Americanos durante a graduação e, segundo familiares, não era ativista política.
Amigos e parentes a descrevem como uma pessoa afetuosa e compassiva. Sua mãe, Donna Ganger, afirmou à imprensa local que a filha estava “provavelmente apavorada” no momento da abordagem. Uma campanha de arrecadação criada para apoiar a família ultrapassou US$ 370 mil poucas horas após o caso.
A morte de Good ocorre cinco anos após Minneapolis ter se tornado símbolo de protestos nacionais com o assassinato de George Floyd, reacendendo o temor de uma nova escalada de manifestações contra a violência estatal e o uso da força por agentes de segurança nos Estados Unidos.