
A aeronave que transportou o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, para a final da Libertadores de 2025, em Lima, no Peru, também realizou voos no ano passado para a região próxima ao resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no norte do Paraná. O empreendimento já teve participação societária de parentes do magistrado.
Levantamento com base em registros de voos obtidos pelo jornal O Globo mostra que o jatinho, pertencente a uma empresa do empresário Luiz Osvaldo Pastore, realizou ao menos dois deslocamentos entre Ourinhos (SP) e Brasília, nos meses de março e agosto de 2025. Ourinhos abriga o aeroporto mais próximo de Ribeirão Claro, distante cerca de 40 quilômetros do resort.
Nas mesmas datas desses voos, constam pagamentos de diárias pelo Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2), de São Paulo, para agentes de segurança que acompanhavam um ministro do STF em estadias na cidade paranaense. Dados administrativos apontam que equipes de segurança do Judiciário estiveram em Ribeirão Claro por, ao menos, 128 dias desde 2022.
O resort Tayayá passou a ocupar o centro de uma controvérsia após a atuação de Toffoli como relator das investigações envolvendo o Banco Master, que teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. O principal alvo do inquérito é o banqueiro Daniel Vorcaro.
Reportagens da Folha de S.Paulo e do Estado de S.Paulo revelaram que um fundo de investimentos ligado ao pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, adquiriu, em 2021, parte da participação de dois irmãos de Toffoli no resort. José Carlos e José Eugênio — irmãos de Toffoli — foram sócios do empreendimento entre dezembro 2020 e fevereiro de 2025.
À época, a fatia negociada foi avaliada em cerca de R$ 6,6 milhões. Um dos irmãos do ministro chegou a administrar o empreendimento durante esse período.
Os dados analisados indicam que, em 7 de março de 2025, a aeronave de Pastore decolou de Ourinhos com destino a Brasília, enquanto registros de diárias mostram a presença de seguranças em Ribeirão Claro entre os dias 2 e 6 do mesmo mês. Situação semelhante ocorreu em agosto: no dia 1º, o jatinho fez o trajeto inverso, de Brasília para Ourinhos, coincidindo com diárias pagas para o período de 1º a 4 daquele mês.
Em dezembro, o colunista Lauro Jardim já havia noticiado que Toffoli utilizou o mesmo jatinho para viajar à final da Libertadores, acompanhado do advogado Augusto de Arruda Botelho, defensor de um dos investigados no caso Banco Master. Também houve registro do uso da aeronave no retorno de um evento em Roma, em novembro de 2025.
À época, Toffoli afirmou que não recebeu qualquer tipo de cachê e que despesas de passagem e hospedagem foram custeadas pelo evento, sem uso de recursos públicos. Sobre Pastore, declarou tratar-se de um amigo pessoal e negou conflito de interesses.
Procurado, o STF informou, em nota, que a atuação de suas equipes de segurança tem como objetivo “garantir a autonomia e a imparcialidade dos ministros”, ressaltando que magistrados da Corte são alvos frequentes de ameaças, que vão desde ataques virtuais até tentativas de invasão de prédios do Tribunal.
Luiz Osvaldo Pastore não respondeu aos contatos da reportagem. Dias Toffoli também foi procurado, mas não se manifestou até a última atualização.
Desde dezembro de 2025, Toffoli concentrou em sua relatoria todas as investigações relacionadas ao Banco Master em diferentes instâncias, decisão que gerou críticas no meio jurídico e político. Entre os atos questionados estão a imposição de sigilo rigoroso, limitações ao acesso da Polícia Federal a materiais apreendidos e a condução direta de procedimentos considerados atípicos por investigadores.
Nos últimos dias, vídeos divulgados pelo portal Metrópoles também mostraram o ministro recebendo, no resort Tayayá, empresários como Luiz Pastore e o banqueiro André Esteves, ampliando o debate público sobre a relação entre o magistrado, o empreendimento e os investigados no caso Master.