
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo das gravações dos depoimentos e da acareação realizados em 30 de dezembro do ano passado no inquérito que investiga fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB).
Os vídeos, tornados públicos nesta quinta-feira (29), mostram trechos das falas do fundador do Master, Daniel Vorcaro, do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor do Banco Central, Ailton Aquino, que prestou depoimento como testemunha.
Um dos pontos centrais revelados nas gravações é a divergência direta entre Vorcaro e Costa sobre a origem das carteiras de crédito adquiridas pelo BRB a partir de 2025.
Vorcaro afirmou que o BRB tinha conhecimento de que parte dos créditos comprados não havia sido originada pelo Master, mas por outra empresa, chamada Tirreno. Segundo ele, o modelo de negócios previa a aquisição de carteiras estruturadas por terceiros.
Já Paulo Henrique Costa negou essa versão. O ex-presidente do BRB disse que sempre entendeu que os ativos tinham origem no próprio Master e que as dúvidas sobre a procedência das carteiras só surgiram posteriormente.
Durante a acareação, a delegada da Polícia Federal questionou se o BRB havia perguntado de forma explícita sobre quem eram as originadoras das carteiras. A autoridade destacou que havia um conflito claro entre as versões apresentadas.
Nesse momento, Costa tentou esclarecer sua posição, enquanto Vorcaro optou por não responder ao questionamento.
Em outro trecho do depoimento, Vorcaro minimizou qualquer influência política em Brasília. Questionado sobre a atuação de aliados políticos na tentativa de viabilizar a venda do Master ao BRB, ele afirmou que, se tivesse apoio político, não estaria usando tornozeleira eletrônica.
A negociação entre os bancos acabou sendo barrada pelos órgãos de controle e não foi concluída.
As gravações mostram ainda que a defesa de Vorcaro recusou um pedido da Polícia Federal para retirar o sigilo do celular do banqueiro. O advogado Roberto Podval alegou que o aparelho continha informações pessoais e que havia risco de vazamento.
O depoimento do diretor do Banco Central, Ailton Aquino, trouxe afirmações consideradas graves. Segundo ele, o Master emitiu créditos que não existiam, prática comparada ao caso do Banco Cruzeiro do Sul, liquidado em 2012.
Aquino confirmou que o BC identificou de forma clara a inexistência de parte dos créditos e afirmou que, apesar de orientações jurídicas para ser cauteloso, a irregularidade era evidente.
Outro ponto revelado nos vídeos é a situação financeira crítica do Master antes da liquidação extrajudicial. Segundo Aquino, o banco tinha apenas R$ 4 milhões em caixa, valor incompatível com uma instituição classificada como de médio porte, que possuía cerca de R$ 80 bilhões em ativos.
Especialistas explicam que bancos desse porte deveriam manter um volume muito maior de recursos disponíveis para garantir liquidez.
Aquino também mencionou dificuldades de pagamento envolvendo a Will Financeira, conhecida como Will Bank, que fazia parte do conglomerado do Banco Master.
A instituição enfrentava atrasos em pagamentos, inclusive com a Mastercard, o que levou à suspensão da aceitação dos cartões emitidos pelo banco. Antes da liquidação, o Will Bank estava sob Regime de Administração Especial Temporária (Raet), quando o Banco Central assume o controle para tentar evitar prejuízos maiores.
Segundo o BC, houve tentativa de preservar a operação e viabilizar a venda da instituição a investidores, mas o negócio não avançou. Diante do agravamento da situação, o órgão decretou a liquidação extrajudicial.
Com a divulgação dos vídeos, o inquérito entra em uma nova fase, com maior exposição das contradições entre os investigados e dos indícios técnicos apontados pelo Banco Central. As investigações seguem sob supervisão do STF.