
Palestinos da Faixa de Gaza receberam com sentimentos mistos a reabertura da passagem de Rafah, nesta segunda-feira (2). O posto de controle, único acesso ao território que não passa diretamente por Israel, voltou a operar após mais de dois anos fechado, mas sob regras rígidas e limitações severas.
A circulação está autorizada apenas para palestinos a pé e depende de aval prévio tanto de autoridades israelenses quanto egípcias. Segundo a Reuters, inicialmente apenas 50 pessoas poderão sair e 50 entrar em Gaza por dia. Já a Agence France-Presse cita fontes egípcias que falam em até 150 autorizações de saída e 50 de entrada diariamente.
A principal expectativa em torno da reabertura envolve pacientes que precisam deixar Gaza para receber tratamento médico. De acordo com profissionais de saúde locais, cerca de 20 mil palestinos aguardam autorização para sair do território em busca de atendimento especializado, principalmente no Egito.
“Um paciente vai ao Egito para se tratar, não para passar por revistas humilhantes e ouvir que pode ou não voltar. Isso é inaceitável”, afirmou Salim Ayad à Reuters.
Relatos semelhantes se repetem entre famílias com crianças doentes. “Não há equipamentos, medicamentos nem estrutura adequada nos hospitais. Para crianças, a situação é ainda pior”, disse Iman Hamdouna, mãe de uma criança de dois anos.
Estimativas indicam que cerca de 100 mil palestinos deixaram Gaza nas primeiras semanas da guerra. Muitos desejam retornar, mas sabem que encontrarão um território devastado, com casas, comércios e infraestrutura destruídos pelos bombardeios.
“Estamos felizes, mas também apreensivos. Falta tudo: comida, combustível, remédios, tendas, colchões”, relatou Asmahan Abdel Atti à Reuters.
A reativação de Rafah integra a segunda fase do plano de cessar-fogo articulado pelos Estados Unidos e países da região, após a trégua iniciada em outubro do ano passado. A primeira etapa foi encerrada com a devolução do corpo do último refém mantido em Gaza.
O anúncio foi feito pelo Cogat, responsável por assuntos civis no território palestino. Segundo o órgão, a reabertura ocorre em caráter piloto, com apoio da missão da União Europeia para assistência de fronteiras (Eubam).
No mesmo dia da reabertura, Israel informou que a Médicos Sem Fronteiras deverá interromper suas atividades em Gaza por se recusar a entregar uma lista completa de seus funcionários palestinos. O governo israelense afirma que a exigência vale para todas as organizações humanitárias que atuam no território.
A ONG classificou a medida como um “pretexto para impedir a ajuda humanitária” e afirmou que tentou negociar garantias de segurança antes de compartilhar informações sensíveis sobre seus colaboradores.
Egito e Jordânia criticaram duramente o anúncio israelense. Em reunião no Cairo, o presidente egípcio Abdul Fatah al-Sisi e o rei Abdullah II, da Jordânia, reiteraram oposição a qualquer tentativa de deslocamento forçado da população palestina.
Apesar do cessar-fogo, a instabilidade continua. No sábado (31), ataques aéreos israelenses atingiram áreas de Gaza, incluindo uma delegacia administrada pelo Hamas e regiões com tendas de deslocados. Autoridades de saúde locais informaram ao menos 32 mortos, entre eles três crianças.
O conflito teve início em 7 de outubro de 2023, após ataque do Hamas a Israel. Na sexta-feira (30), Israel reconheceu pela primeira vez que ao menos 25 mil civis palestinos morreram durante os bombardeios.
As próximas fases do plano internacional preveem a retirada gradual das tropas israelenses, a administração de Gaza por tecnocratas palestinos, o desarmamento do Hamas e a presença de uma força internacional de paz. Até o momento, o Hamas rejeita entregar suas armas, e Israel afirma que poderá retomar ações militares caso não haja acordo.
Enquanto isso, para a população palestina, a reabertura de Rafah representa menos uma solução definitiva e mais uma brecha limitada de esperança em meio a um cenário ainda marcado por guerra, destruição e incertezas.