
O presidente Vladimir Putin afirmou nesta terça-feira (2) que a Rússia está “pronta agora mesmo” para um confronto militar com países europeus, caso haja escalada. A declaração foi dada em Moscou, horas antes de o líder russo receber os enviados de Donald Trump — o negociador Steve Witkoff e o genro do presidente americano, Jared Kushner — para discutir uma saída para a guerra na Ucrânia.
Putin criticava o que chamou de “demandas inaceitáveis” feitas por aliados europeus de Kiev no plano de paz elaborado por Witkoff e pelo negociador russo Kirill Dmitriev. Segundo ele, as exigências, como deixar aberta a entrada da Ucrânia na Otan e não reconhecer os 20% do território ocupados pela Rússia, têm o objetivo de sabotar as conversas.
“Se a Europa quiser lutar contra nós de repente, estamos prontos agora mesmo”, disse Putin, acrescentando que os europeus seriam derrotados e “não sobraria ninguém para negociar” uma eventual paz.
As falas ampliam a estratégia do Kremlin de enfraquecer a posição europeia e fortalecer a interlocução direta com Trump, que já havia sinalizado disposição em reabrir negociações. Para Moscou, países da União Europeia defendem a continuidade da guerra para desgastar a Rússia — uma leitura rejeitada pelos governos europeus.
O discurso de confronto ocorre em meio ao processo de rearmamento europeu desde a invasão da Ucrânia, em 2022. Diversos países já trabalham com cenários de um possível conflito direto com Moscou até 2030.
As declarações também foram impulsionadas por uma importante vitória militar reivindicada por Putin: a tomada de Pokrovsk, um dos principais centros logísticos das forças ucranianas em Donetsk.
A conquista seria a mais relevante para o Kremlin em quase dois anos.
Kiev nega a perda total da cidade. O presidente Volodimir Zelenski afirmou que os avanços russos são “exagerados” e que parte das tropas ucranianas ainda combate no norte de Pokrovsk. Apesar disso, analistas militares indicam que a queda da cidade é provável.
O controle de Pokrovsk pode abrir caminho para que Moscou avance sobre os 15% restantes de Donetsk — uma das quatro regiões anexadas ilegalmente pela Rússia em 2022.
Zelenski, que está em viagem pela Europa, disse ser “vital” manter o continente nas negociações e alertou para o risco de um acordo feito “pelas costas da Ucrânia”. O líder voltou a pedir o uso de US$ 300 bilhões em ativos russos congelados no exterior para financiar armas e reconstrução, mas o Banco Central Europeu se posicionou contra, alegando ilegalidade.
O presidente ucraniano enfrenta ainda uma crise interna: um escândalo de corrupção no setor de energia levou à queda de mais uma autoridade e atingiu o influente chefe de gabinete Andrii Iermak, responsável por negociações de paz.
A reunião no Kremlin com Witkoff e Kushner durou cerca de cinco horas e foi classificada como “produtiva” por Dmitriev. É o sexto encontro entre o negociador russo e os representantes americanos neste ano.
Enquanto isso, a Europa teme ser deixada de lado num possível acordo conduzido diretamente entre Moscou e Washington.