
Centenas de agricultores bloquearam ruas do centro de Bruxelas, nesta quinta-feira (17), durante uma reunião do Conselho da União Europeia, em protesto contra o acordo comercial entre a UE e o Mercosul. Mais de 150 tratores foram usados no bloqueio, e organizadores estimam que o ato possa reunir até 10 mil manifestantes no bairro europeu da capital belga.
Os produtores afirmam que o tratado pode colocar a agricultura europeia em desvantagem, ao permitir maior entrada de produtos mais baratos da América do Sul, especialmente do Brasil. “Estamos aqui para dizer não ao Mercosul”, afirmou o produtor belga de laticínios Maxime Mabille, que acusou a Comissão Europeia de tentar impor o acordo sem ouvir o setor agrícola.
A mobilização ocorre em um momento decisivo das negociações. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que ainda espera obter aval político para concluir o acordo e viajar ao Brasil para a assinatura. Segundo ela, houve uma reunião “boa e produtiva” com representantes dos agricultores para ouvir as preocupações do setor.
Mesmo assim, o cenário segue indefinido. França e Itália defendem o adiamento da assinatura e exigem salvaguardas mais robustas, controles de importação e regras mais rígidas para produtos do Mercosul. O presidente francês, Emmanuel Macron, reiterou que seu país não apoiará o tratado sem garantias adicionais aos agricultores e prometeu se opor a qualquer tentativa de “forçar” a aprovação.
O acordo UE–Mercosul criaria a maior área de livre comércio do mundo e ampliaria exportações europeias de veículos, máquinas, vinhos e bebidas para a América Latina. No entanto, enfrenta resistência crescente no Conselho Europeu, que exige maioria qualificada: apoio de ao menos 15 dos 27 países, representando 65% da população da UE.
Com França, Polônia e Hungria contrárias ao tratado e a Itália considerada o fiel da balança, cresce o risco de o acordo ser barrado. Caso Roma se alinhe formalmente à oposição, os países contrários ultrapassariam o limite populacional necessário para impedir a aprovação.
Do lado do Mercosul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que, se a assinatura prevista para sábado (20), em Foz do Iguaçu, for adiada, o Brasil não aceitará retomar o acordo durante seu mandato, que vai até dezembro de 2026. Segundo Lula, o impasse decorre de pressões políticas internas em países europeus.
Além do acordo comercial, agricultores europeus também protestam contra propostas da Comissão Europeia para reformular os subsídios agrícolas do bloco, temendo redução de recursos ao setor. O tratado, negociado há 26 anos, segue sem consenso e com futuro cada vez mais incerto dentro da União Europeia.