
Mesmo após novas rodadas de conversas envolvendo Donald Trump, Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, o fim da guerra entre Rússia e Ucrânia continua distante. Autoridades dos três países admitem avanços nas negociações, mas reconhecem que pontos considerados “espinhosos” ainda impedem a assinatura de um acordo definitivo.
No domingo (28), Trump conversou por telefone com Putin e, horas depois, se reuniu com Zelensky na Flórida. Apesar do tom otimista, o presidente americano evitou estabelecer prazos e reconheceu que questões estruturais seguem sem solução.
A concessão de terras é apontada como o maior obstáculo ao acordo. A Rússia reivindica como parte de seu território regiões ocupadas desde 2022, como Donbas, Zaporizhzhia e Kherson — áreas que a comunidade internacional reconhece como ucranianas.
Atualmente, estimativas indicam que Moscou controla cerca de 20% do território da Ucrânia, incluindo:
A Crimeia, anexada em 2014
Aproximadamente 90% de Donbas
Cerca de 75% de Zaporizhzhia e Kherson
Pequenas áreas de Kharkiv, Sumy, Mykolaiv e Dnipropetrovsk
Trump afirmou que Kiev deveria considerar concessões agora para evitar perdas maiores no futuro. O Kremlin foi além: declarou que a Ucrânia precisa retirar suas tropas do Donbas para que haja paz. Zelensky admite submeter qualquer acordo a um referendo nacional, como exige a Constituição, mas condiciona isso a um cessar-fogo mínimo de 60 dias.
Outro ponto sensível é o destino da usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, atualmente sob controle russo. O governo ucraniano propõe uma gestão compartilhada entre Ucrânia e Estados Unidos, com divisão da produção de energia.
Trump elogiou a postura de Putin em relação à usina, afirmando que o líder russo estaria disposto a cooperar. Para Kiev, porém, qualquer acordo que mantenha o controle russo sobre a instalação representa risco estratégico e energético.
As garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos também estão no centro das negociações. Zelensky revelou que Trump propôs proteção por 15 anos, com possibilidade de prorrogação. O presidente ucraniano, no entanto, pediu um compromisso de longo prazo, entre 30 e 50 anos.
Na prática, essas garantias funcionariam de forma semelhante ao artigo 5º da OTAN, prevendo resposta militar conjunta em caso de nova invasão russa — algo rejeitado por Moscou.
Outro ponto de divergência é o formato do acordo. Enquanto Ucrânia e aliados europeus defendem uma trégua inicial para discutir concessões territoriais, Rússia e Estados Unidos avaliam que cessar-fogos temporários apenas prolongam o conflito.
O assessor do Kremlin Yuri Ushakov afirmou que Trump e Putin compartilham a visão de que um acordo só será viável se resolver, de forma definitiva, as chamadas “causas profundas” da guerra.
As negociações ocorrem sob forte pressão militar. Moscou anunciou avanços recentes no leste da Ucrânia, incluindo a tomada de localidades estratégicas. Kiev tenta minimizar as perdas, mas admite dificuldades no front.
Ao mesmo tempo, Trump afirmou que cerca de 95% dos pontos apresentados por Zelensky já teriam sido debatidos em relação a uma proposta inicial americana, elaborada em conjunto com a Rússia. Ainda assim, temas como policiamento de áreas desmilitarizadas e controle de regiões ocupadas seguem sem consenso.
Apesar do discurso de que a paz “está mais próxima do que nunca”, o cenário indica que qualquer acordo dependerá de concessões difíceis, especialmente para a Ucrânia. Putin sinaliza que só aceitará um desfecho que possa ser apresentado internamente como vitória estratégica, enquanto Zelensky enfrenta limites políticos e constitucionais para ceder território.
Sem consenso sobre fronteiras, segurança e controle de ativos estratégicos, a guerra iniciada em 2022 entra em mais uma fase de negociação prolongada — com avanços pontuais, mas ainda sem um desfecho à vista.