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UE aprova acordo com Mercosul após 25 anos de negociação

Acordo cria maior zona de livre comércio do mundo, com mercado de 722 milhões de pessoas, mas ainda depende de confirmações formais e do Parlamento Europeu

Por: Lavínia Dornellas
09/01/2026 às 14h13
UE aprova acordo com Mercosul após 25 anos de negociação
Foto: Reprodução

Os países da União Europeia deram nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, o aval político para o acordo de livre comércio com o Mercosul, negociado há mais de duas décadas. O tratado, que reúne um mercado estimado em 722 milhões de consumidores, é considerado o maior pacto comercial do mundo, mas ainda precisa cumprir etapas formais antes de entrar em vigor.

Com a decisão dos embaixadores dos Estados-membros, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, recebeu sinal verde para assinar o acordo na próxima semana, em encontro previsto no Paraguai. Antes disso, porém, os votos precisam ser confirmados pelos governos dos 27 países do bloco e, posteriormente, o texto terá de ser aprovado pelo Parlamento Europeu.

Segundo diplomatas ouvidos pela imprensa europeia, França, Polônia, Hungria, Irlanda e Áustria votaram contra o acordo. A Bélgica se absteve. A Itália, considerada o fiel da balança, acabou aderindo à maioria favorável, o que impediu a formação de uma minoria de bloqueio no Conselho da UE.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou apoiar acordos de livre comércio, mas criticou a assimetria regulatória. “Sou a favor do livre comércio, mas também da regulamentação”, declarou, ao defender que regras ambientais e produtivas sejam equilibradas entre os parceiros.

A França, principal liderança contrária ao tratado, já anunciou que pretende intensificar a reação política. Agricultores franceses voltaram a protestar em Paris nesta sexta-feira, enquanto partidos de oposição tentam usar o acordo para ampliar a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron e o governo.

 

O acordo prevê a eliminação de tarifas sobre cerca de 91% das mercadorias negociadas entre os dois blocos. Estimativas da Comissão Europeia indicam que as exportações europeias para o Mercosul podem crescer até 39%, com potencial de gerar cerca de 440 mil empregos no continente.

As negociações tiveram início em 1999, mas ficaram paralisadas por longos períodos. O processo ganhou novo impulso no fim de 2024, com forte articulação do governo brasileiro, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e de países europeus com forte perfil exportador, como Alemanha e Espanha.

Nos bastidores, diplomatas europeus avaliam que o contexto internacional ajudou a destravar o acordo. As tarifas impostas pelos Estados Unidos sob Donald Trump e a postura mais hostil ao multilateralismo deram novo peso estratégico ao pacto entre UE e Mercosul.

 

Próximos passos e riscos

Apesar do aval político, apenas a parte comercial do acordo está pronta para assinatura. Os capítulos de natureza política e institucional ainda dependem de ratificação nos Parlamentos nacionais dos 27 países da UE, um processo que pode levar anos — ou nem se concretizar.

A França deve concentrar esforços no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, onde o tratado precisa ser ratificado até abril. Há também tentativas de levar o acordo ao Tribunal de Justiça da UE, o que poderia atrasar o cronograma por tempo indeterminado.

O tratado enfrenta resistência tanto da extrema direita, ligada a setores ruralistas europeus, quanto de partidos de esquerda e ambientalistas. Organizações como o Greenpeace alertam para riscos ambientais, especialmente em relação à Amazônia, e afirmam que as salvaguardas climáticas previstas no texto são consideradas frágeis.

Em 2024, o volume de comércio entre União Europeia e Mercosul chegou a € 111 bilhões. A UE exporta principalmente máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte, enquanto o Mercosul vende majoritariamente produtos agrícolas, minerais, celulose e papel.

Pelo acordo, o Mercosul eliminará tarifas sobre 91% das exportações europeias, incluindo automóveis, hoje taxados em até 35%, ao longo de até 15 anos. A UE, por sua vez, reduzirá tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul em um período de até 10 anos.

Com o aval europeu, líderes do Mercosul trabalham para confirmar a assinatura do tratado já na próxima semana, no Paraguai, país que exerce a presidência rotativa do bloco sul-americano.

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