
A brasileira Gláucia Fekete afirma que escapou de um possível esquema de aliciamento ligado ao financista Jeffrey Epstein após a mãe impedir que ela viajasse para Nova York com o agente francês Jean-Luc Brunel, apontado como recrutador de jovens para a rede do bilionário.
A história veio à tona em nova investigação da BBC News Brasil sobre a atuação da rede de Epstein no Brasil e no Equador.
Em 2004, quando tinha 16 anos, Gláucia foi convidada para participar do concurso Models New Generation, realizado em Guayaquil, no Equador. O evento prometia prêmio de US$ 300 mil e contratos internacionais. Brunel chegou a visitar a casa da família, em Santa Rosa (RS), para convencer a mãe da adolescente a autorizar a viagem.
Na época, não havia acusações formais contra Epstein. Segundo documentos divulgados posteriormente pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o próprio Epstein esteve em Guayaquil na mesma semana da final do concurso.
Brunel, que mantinha proximidade com Epstein desde os anos 1980, foi preso na França em 2020 sob acusação de estupro e tráfico de menores. Ele morreu na prisão em 2022, antes de ser julgado.
De acordo com investigações americanas, Brunel utilizava agências como a Karin Models e, posteriormente, a MC2 — que recebeu investimento de Epstein — para recrutar jovens modelos, inclusive menores de idade, oferecendo vistos e contratos internacionais.
Documentos judiciais indicam que ao menos uma participante menor de idade do concurso no Equador viajou no avião de Epstein naquele mesmo ano.
Gláucia participou do concurso, mas foi impedida pela mãe de seguir viagem para os Estados Unidos com Brunel. Hoje, aos 38 anos, ela afirma que só compreendeu a dimensão do episódio anos depois, ao conhecer as investigações envolvendo Epstein.
“Minha mãe me salvou”, disse.
Relatos colhidos pela BBC também apontam que Brunel demonstrava interesse especial por adolescentes brasileiras e jovens de países em situação econômica vulnerável.
As reportagens do jornal Miami Herald, publicadas em 2019, ajudaram a reabrir o caso contra Epstein nos Estados Unidos. Preso novamente naquele ano, ele morreu na cadeia enquanto aguardava julgamento.
O Ministério Público Federal brasileiro abriu investigação para apurar possíveis ramificações da rede no país.
Brunel sempre negou as acusações e chegou a processar Epstein, alegando que a associação prejudicou sua reputação. Ainda assim, trocou mensagens amistosas com o bilionário anos depois das primeiras denúncias.