
Revelações recentes sobre relações entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o empresário Daniel Vorcaro, ex-banqueiro ligado ao Banco Master, aumentaram a pressão sobre a Procuradoria-Geral da República (PGR) para que investigue possíveis irregularidades envolvendo magistrados da Corte.
A avaliação é de advogados, professores e entidades ouvidos pela Folha de S.Paulo, que apontam que os fatos divulgados reforçam a necessidade de apuração dentro das investigações que envolvem o banco.
Documentos obtidos e revelados pelo jornal indicam que o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci, viajaram em jatos de empresas pertencentes a Vorcaro ou ligadas ao empresário. Também apontam que o ministro Dias Toffoli utilizou aeronave de uma empresa do mesmo empresário em viagem ao resort Tayayá, no Paraná.
As informações divulgadas se somam a outros elementos já mencionados no caso, como um contrato de R$ 129 milhões do escritório de Viviane Barci com o Banco Master, além de mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro e a participação societária de Toffoli em uma empresa que teve relação com o empreendimento do resort Tayayá.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi indicado ao cargo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2023, fora da lista tríplice tradicional da categoria, e teve o mandato renovado em 2025. Nos bastidores do Supremo, ele é considerado próximo de ministros como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
Segundo o site Poder360, Gonet também participou, em 2024, de um evento em Londres com Moraes, Vorcaro e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, durante uma degustação do uísque Macallan. Outras autoridades, incluindo Gilmar Mendes, também teriam sido convidadas para o encontro.
Pela Constituição, ministros do Supremo possuem foro privilegiado, o que significa que somente o próprio STF pode julgá-los. Além disso, a Polícia Federal ou a PGR não podem abrir investigações diretamente contra magistrados sem autorização da Corte.
A legislação determina que, quando houver indícios de crime envolvendo um magistrado, o caso deve ser encaminhado ao órgão competente para decisão sobre a abertura de investigação.
Em fevereiro deste ano, a Polícia Federal entregou ao STF um relatório apontando indícios de possíveis crimes envolvendo o ministro Dias Toffoli. A partir da comunicação, o presidente do Supremo, Edson Fachin, abriu uma arguição de suspeição, e Toffoli deixou a relatoria do caso.
Para o criminalista Thúlio Guilherme Nogueira, doutorando em direito processual penal pela USP, o conjunto de fatos divulgados indica que as relações entre autoridades e o empresário precisam ser esclarecidas.
Ele, no entanto, afirma que a atuação da PGR deve ser cautelosa para evitar desgaste institucional semelhante ao ocorrido em momentos de forte exposição da Procuradoria, como na época da Operação Lava Jato.
O professor Antônio José Teixeira Martins, da UFRJ e da UERJ, também avalia que o volume de notícias pode gerar a percepção de falta de ação, mas afirma que não há sinais claros de omissão por parte da Procuradoria.
Segundo ele, a atuação da PGR tem sido marcada por cautela, evitando tanto uma postura de perseguição quanto uma eventual omissão diante das investigações.
Reportagem da Folha de S.Paulo também apontou que o ministro Dias Toffoli viajou, em 4 de julho de 2025, em um jato executivo operado pela Prime Aviation, empresa que tinha como sócio Daniel Vorcaro.
Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) indicam que o ministro entrou no terminal executivo do Aeroporto de Brasília por volta das 10h, no mesmo período em que uma aeronave da empresa decolou às 10h10 com destino a Marília (SP), cidade natal de Toffoli.
No mesmo dia, seguranças do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região foram deslocados para Ribeirão Claro (PR), onde fica o resort Tayayá, local frequentado pelo ministro e situado a cerca de 150 quilômetros de Marília.
A aeronave citada, de prefixo PR-SAD, também teria sido utilizada em outras viagens do ministro Alexandre de Moraes, segundo cruzamento de dados da Anac e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).

Em nota divulgada em fevereiro, o gabinete de Toffoli informou que o ministro é sócio da empresa Maridt, mas afirmou não possuir qualquer relação pessoal ou financeira com Daniel Vorcaro.
Segundo a explicação, a empresa integrou o grupo Tayayá Ribeirão Claro, responsável pelo resort no Paraná, até 21 de fevereiro de 2025, quando foi concluída sua saída do empreendimento.
A saída ocorreu em duas etapas:
De acordo com o gabinete do ministro, todas as operações foram declaradas à Receita Federal e ocorreram dentro do valor de mercado, embora os valores não tenham sido divulgados.
Interlocutores afirmam ainda que Toffoli recebeu dividendos da empresa Maridt enquanto ela ainda integrava o grupo responsável pelo resort.