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Entenda como Flávio cruzou a fronteira com a Argentina

Senador passou pela Ponte Internacional Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu, acompanhado da família; fiscalização brasileira não aborda obrigatoriamente todos os veículos que deixam o país

Lavínia Dornellas
Por: Lavínia Dornellas
28/10/2026 às 13h54 Atualizada em 28/10/2026 às 14h57

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atravessou a fronteira entre o Brasil e a Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu, no Paraná, às 22h50 de terça-feira (27). A entrada no país vizinho foi confirmada pela Direção Nacional de Migrações da Argentina, que informou que o parlamentar estava acompanhado da mulher e das duas filhas. A viagem ocorreu mesmo após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que proibia Flávio de deixar o Brasil.

Segundo o órgão argentino, o senador, a esposa Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e as filhas Carolina e Luiza apresentaram documentos válidos e passaram pelo controle migratório sem incidentes.

A confirmação esclareceu parte do trajeto realizado pela família antes do embarque em um avião particular rumo aos Estados Unidos. Flávio desembarcou em Miami na manhã desta quarta-feira (28), após uma escala no Equador.

Mas a passagem pela fronteira levantou uma questão: como o senador conseguiu deixar o território brasileiro mesmo estando proibido pela Justiça?

Como funciona a fiscalização na ponte entre Brasil e Argentina?

A Ponte Internacional Tancredo Neves, também conhecida como Ponte da Fraternidade, liga Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, à cidade argentina de Puerto Iguazú, na província de Misiones.

A travessia é utilizada diariamente por turistas, trabalhadores e moradores da região de fronteira. O acesso para veículos particulares funciona 24 horas por dia.

Para entrar na Argentina, os motoristas seguem pela BR-469, em Foz do Iguaçu, atravessam a ponte sobre o Rio Iguaçu e acessam a Ruta Nacional 12, já em território argentino.

De acordo com informações apuradas pelo g1, a fiscalização brasileira não realiza a abordagem obrigatória de todos os veículos e cidadãos brasileiros que deixam o país por essa passagem.

O controle pode ocorrer de forma seletiva, enquanto estrangeiros estão sujeitos aos procedimentos migratórios de saída.

Por isso, é possível que Flávio Bolsonaro e seus familiares tenham atravessado o posto brasileiro sem serem abordados por agentes da Polícia Federal.

Essa possibilidade, entretanto, não esclarece se houve alguma verificação específica dos documentos do senador no momento da saída.

Controle migratório argentino é obrigatório

Após atravessar a ponte, os viajantes passam pelo controle migratório da Argentina, onde os agentes verificam os documentos e registram a entrada no país.

Brasileiros que viajam a turismo podem apresentar um documento de identidade válido e aceito para viagens internacionais, como o RG, ou um passaporte dentro da validade.

A Carteira Nacional de Habilitação (CNH) não é aceita como documento de viagem internacional.

Durante a fiscalização, as autoridades argentinas podem conferir a identidade dos passageiros, o motivo da viagem e a existência de impedimentos para a entrada no país.

No complexo de fronteira também atuam a Aduana, responsável pela fiscalização de mercadorias e bagagens, e a Gendarmería Nacional, força de segurança argentina.

Embora funcionem no mesmo local, os órgãos exercem funções diferentes.

No caso de Flávio Bolsonaro, a Direção Nacional de Migrações confirmou que os quatro integrantes da família apresentaram documentos válidos e foram autorizados a entrar na Argentina.

O comunicado, no entanto, não esclareceu qual documento foi utilizado pelo senador na travessia.

Autorização argentina não anula proibição do STF

A entrada regular na Argentina não significa que Flávio Bolsonaro estava autorizado a deixar o Brasil.

Na segunda-feira (26), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o senador entregasse seus passaportes à Polícia Federal em até 24 horas.

A decisão também estabeleceu uma proibição expressa de saída do território brasileiro.

Flávio não apresentou os documentos dentro do prazo determinado. Na terça-feira (27), a Polícia Federal cancelou seus passaportes comum e diplomático brasileiros.

Mesmo assim, o senador atravessou a fronteira naquela noite.

A determinação judicial foi adotada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, que também envolve o advogado Willer Tomaz, próximo à família Bolsonaro.

O fato de as autoridades argentinas não terem identificado impedimentos para a entrada da família não afasta o descumprimento da restrição imposta pela Justiça brasileira.

Da fronteira ao aeroporto em menos de uma hora

Depois de passar pelo controle migratório argentino, Flávio e seus familiares seguiram para o Aeroporto Internacional Cataratas del Iguazú, localizado na região de Puerto Iguazú.

O terminal fica a aproximadamente 20 quilômetros do centro da cidade. O deslocamento a partir da fronteira costuma levar cerca de 30 minutos, dependendo do trânsito.

Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, a família cruzou a fronteira às 22h50 e embarcou em uma aeronave particular por volta das 23h30, aproximadamente 40 minutos depois.

O voo foi operado pela empresa argentina Baires Fly S.A., utilizando um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW.

A aeronave tinha como primeiro destino Guayaquil, no Equador, onde realizou uma parada para reabastecimento.

Depois, seguiu para Miami, nos Estados Unidos, sem cruzar o espaço aéreo brasileiro, segundo informações de monitoramento de voos divulgadas pelo g1.

O senador e a família desembarcaram na Flórida na manhã desta quarta-feira (28).

Governo dos EUA autorizou entrada da família

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira que aprovava a entrada de Flávio Bolsonaro e de seus familiares no território norte-americano.

Questionado por jornalistas, Trump declarou que considerava positiva a possibilidade de receber o senador, que foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de domingo (25).

“Bem, eu aprovaria. Acho que eles são boas pessoas. A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível”, afirmou o presidente norte-americano, sem apresentar provas de irregularidades na votação brasileira.

Uma autoridade do Departamento de Estado dos Estados Unidos também informou à TV Globo que o governo concederia vistos a Flávio e seus familiares, permitindo a entrada no país.

PF deverá informar STF sobre saída do país

Com a confirmação da travessia pela Argentina e da chegada aos Estados Unidos, a Polícia Federal deverá reunir os registros migratórios e as informações sobre o voo para encaminhá-los ao Supremo Tribunal Federal.

O material poderá ser utilizado na análise do descumprimento das medidas cautelares determinadas por Alexandre de Moraes.

Até as informações disponíveis nesta quarta-feira (28), não havia confirmação de expedição de mandado de prisão contra o senador.

O caso evidencia a diferença entre os controles migratórios dos dois países: enquanto as autoridades argentinas confirmaram que Flávio apresentou documentação válida para entrar no território vizinho, a Justiça brasileira havia determinado que ele não poderia deixar o Brasil.

A forma exata como ocorreu a passagem pelo controle brasileiro ainda depende de esclarecimentos das autoridades responsáveis pela fiscalização na fronteira.

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