
O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve convidar Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, para sua posse em 5 de janeiro de 2027, em Brasília. A decisão ocorre em meio a tensões diplomáticas com os dois governos, que ainda não reconheceram oficialmente a vitória do petista sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais de domingo (25).
Segundo auxiliares do Palácio do Planalto, a intenção é enviar convites a todos os chefes de Estado de países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas, sem excluir governos com os quais existem divergências políticas.
A iniciativa é vista por interlocutores do governo como um gesto de manutenção do diálogo institucional, especialmente após as declarações de Trump questionando o resultado eleitoral brasileiro e a saída de Flávio Bolsonaro do país.
Os convites ainda não representam confirmação de presença. Até o momento, não há indicação de que Trump ou Milei tenham decidido participar da cerimônia.
As relações entre o governo brasileiro e os presidentes dos Estados Unidos e da Argentina passaram por novos episódios de tensão após a eleição presidencial.
Na quinta-feira (29), Donald Trump afirmou que não tomou partido na disputa brasileira a pedido de Lula, mas classificou o processo eleitoral como uma “vergonha”.
O republicano também evitou responder diretamente se reconhece a vitória do presidente brasileiro, embora tenha declarado que pretende conversar com ele.
Trump não apresentou provas de irregularidades na votação, cujo resultado foi confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Já Javier Milei, aliado político da família Bolsonaro, fez críticas a Lula ao longo da campanha e também não havia parabenizado o presidente brasileiro pela reeleição.
Apesar das divergências, o Palácio do Planalto não pretende adotar medidas diplomáticas de retaliação neste momento, segundo informações divulgadas pelo Metrópoles.
A avaliação de auxiliares do governo é de que o reconhecimento do resultado por instituições brasileiras, partidos políticos e lideranças internacionais torna desnecessária uma resposta mais contundente às manifestações dos dois presidentes.
Outro fator que aumentou a tensão foi a saída do senador Flávio Bolsonaro do Brasil após a derrota no segundo turno.
O parlamentar deixou o território brasileiro na noite de terça-feira (27), pela fronteira com a Argentina, apesar de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que restringia sua saída do país.
Depois de atravessar a fronteira em Foz do Iguaçu, Flávio embarcou em uma aeronave particular, fez escala no Equador e chegou aos Estados Unidos na quarta-feira (28).
Reportagens apontaram suspeitas de que pessoas ligadas aos governos de Trump e Milei possam ter auxiliado a viagem. A eventual participação de agentes públicos estrangeiros, porém, ainda não foi comprovada.
O presidente norte-americano confirmou que seu governo autorizou a entrada de Flávio nos Estados Unidos, mas afirmou que não pretende se envolver na situação política brasileira.
A chegada do senador a Miami também provocou críticas de parlamentares democratas norte-americanos.
Apesar do cenário político, integrantes do governo brasileiro defendem a preservação das relações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos e a Argentina.
No caso norte-americano, uma das prioridades é retomar as negociações para reduzir tarifas comerciais aplicadas a produtos brasileiros.
Segundo informações da CNN Brasil, Lula também poderá encontrar Trump e Milei antes da posse, durante eventos internacionais previstos para dezembro, incluindo reuniões do G20 e do Mercosul.
A intenção seria utilizar essas oportunidades para manter o diálogo e reforçar os convites à cerimônia de janeiro.
No entanto, ainda não há confirmação de encontros bilaterais entre Lula e os dois líderes.
A cerimônia que marcará o início do quarto mandato de Lula está prevista para 5 de janeiro de 2027, e não mais para o dia 1º, como ocorria tradicionalmente.
A mudança foi estabelecida pela Emenda Constitucional nº 111, de 2021, que alterou as datas de posse dos chefes do Executivo.
Pela nova regra, o presidente e o vice-presidente da República assumem os cargos em 5 de janeiro, enquanto governadores e vice-governadores tomam posse no dia seguinte, 6 de janeiro.
A alteração busca facilitar a organização dos eventos e ampliar a possibilidade de participação de autoridades estrangeiras.
Com as cerimônias realizadas em dias diferentes, os governadores também poderão acompanhar a posse presidencial em Brasília antes de assumirem seus respectivos mandatos.
A presença de líderes estrangeiros em cerimônias presidenciais brasileiras é uma tradição diplomática.
Na posse de Lula em janeiro de 2023, 21 chefes de Estado e de governo participaram da solenidade em Brasília, incluindo representantes de países da América do Sul e da Europa.
Já na posse de Jair Bolsonaro, em 2019, estiveram presentes dez chefes de Estado ou de governo.
Naquela ocasião, Donald Trump, que cumpria seu primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos, foi convidado, mas não compareceu. O governo norte-americano foi representado pelo então secretário de Estado, Mike Pompeo.
O governo Bolsonaro também provocou repercussão ao retirar os convites aos presidentes Nicolás Maduro, da Venezuela, e Miguel Díaz-Canel, de Cuba.
Para a posse de 2027, a orientação do governo Lula é diferente: estender os convites aos países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas, independentemente das divergências entre os governantes.
A participação de Trump e Milei ainda é incerta, mas a previsão de convidá-los sinaliza a intenção do governo brasileiro de preservar os canais diplomáticos, mesmo diante das críticas ao resultado eleitoral e das tensões provocadas pela saída de Flávio Bolsonaro do Brasil.