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A colisão entre STF e Banco Central no caso Banco Master

Convocação de acareação por Dias Toffoli, em pleno recesso, provoca reação do mercado, expõe técnicos do BC e reacende debate sobre limites da interferência judicial em decisões do regulador financeiro

Por: Lavínia Dornellas
29/12/2025 às 18h26
A colisão entre STF e Banco Central no caso Banco Master
Ministro Dias Toffoli/ Foto: Reprodução

O fim de 2025 reservou mais um capítulo de tensão institucional em Brasília. Desta vez, o embate envolve o Supremo Tribunal Federal e o Banco Central, a partir da condução do processo que apura fraudes no Banco Master.

No centro do conflito está a decisão do ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF, de manter a realização de uma acareação entre o dono do banco, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, marcada para esta terça-feira (30), em pleno recesso do Judiciário.

A convocação gerou forte reação dentro do sistema financeiro, no próprio Banco Central e no Ministério Público.

Pedido de esclarecimentos e reação imediata

No fim da última semana, o Banco Central protocolou pedido de esclarecimentos no STF questionando a condição em que seu diretor foi convocado para a audiência — se como investigado, testemunha ou parte interessada. A preocupação central da autarquia é que a presença de um dirigente técnico, que não é investigado no caso, possa expor indevidamente servidores antes da conclusão das apurações.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também se manifestou, solicitando a suspensão da acareação. Toffoli, no entanto, rejeitou os pedidos e manteve a audiência, alegando a necessidade de esclarecimento rápido diante dos possíveis impactos no mercado financeiro.

Após negar os embargos apresentados pelo BC, o ministro esclareceu que Ailton de Aquino não é investigado, mas deverá participar para prestar esclarecimentos técnicos.

Nota do mercado e temor de interferência institucional

A decisão provocou uma reação imediata do mercado. Entidades que representam cerca de 90% do sistema financeiro nacional divulgaram nota pública em defesa da independência técnica do Banco Central e alertaram para riscos institucionais caso decisões regulatórias passem a ser questionadas judicialmente antes da conclusão dos processos administrativos.

Auditores do Banco Central manifestaram indignação interna, avaliando que a acareação expõe servidores e pode abrir precedentes perigosos para a atuação da autoridade monetária.

Diante disso, o BC estuda ingressar com um mandado de segurança no STF para impedir a participação de seu diretor na audiência.

O pano de fundo: a liquidação do Banco Master

O conflito ocorre pouco mais de um mês após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, em novembro, depois da identificação de fraudes que somariam cerca de R$ 12 bilhões em papéis vendidos ao BRB.

Desde o anúncio da liquidação, a defesa de Daniel Vorcaro passou a questionar publicamente a atuação do BC. Inicialmente, alegou que a autarquia nunca teria instaurado processo punitivo formal contra o banqueiro. Em seguida, afirmou que o regulador tinha conhecimento de tratativas para venda do banco a terceiros, o que, segundo a defesa, poderia ter evitado a intervenção.

Investigadores, porém, desconfiam que essas tratativas eram frágeis e que uma viagem de Vorcaro a Dubai teria servido como pretexto para tentativa de fuga — hipótese negada pela defesa.

Histórico de ataques ao Banco Central não é inédito

Gestores do mercado financeiro ouvidos reservadamente afirmam que ofensivas contra o Banco Central em processos de liquidação não são novidade na história do sistema financeiro brasileiro.

Casos como os do Bamerindus, nos anos 1990, e do Banco Santos, nos anos 2000, seguiram um roteiro semelhante: após a intervenção, os controladores passaram a acusar o BC de erros, boatos internos, privilégios a concorrentes e prejuízos indevidos.

No caso do Bamerindus, seu ex-controlador, José Eduardo de Andrade Vieira, chegou a ameaçar processar o Banco Central e acusar a autarquia de favorecer outros bancos. Já Edemar Cid Ferreira, fundador do Banco Santos, atribuiu ao BC a responsabilidade pela falência da instituição, mesmo após a constatação de descumprimento de normas básicas do sistema financeiro.

Em ambos os episódios, as acusações não se sustentaram ao longo do tempo.

Temor interno no Banco Central

Dentro do Banco Central, técnicos avaliam que a acareação cria um risco processual desnecessário. O receio é que a audiência seja usada como instrumento para tentar envolver dirigentes da autarquia nas investigações, ainda que eles não figurem como investigados.

O desconforto aumenta pelo fato de que, internamente, houve divergências técnicas durante a crise do Banco Master. Enquanto a área de Fiscalização defendia a venda do banco como alternativa, a diretoria responsável pela resolução do sistema financeiro se posicionou contra, após a descoberta das fraudes bilionárias.

A acareação desta terça-feira deve definir os próximos passos desse embate — e indicar até que ponto o conflito entre STF e Banco Central pode se aprofundar.

🔎 O que é acareação
A acareação é um procedimento jurídico em que pessoas com depoimentos contraditórios são colocadas frente a frente para esclarecer divergências relevantes sobre fatos investigados no processo. Pode envolver investigados, testemunhas ou partes diretamente relacionadas ao caso.

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