
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se apresenta como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar de ter sido derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. O documento passou por alterações depois de circular com um brasão nacional antigo, que identificava o país como “Estados Unidos do Brazil”. Em uma versão posterior, Flávio também retirou a referência a si mesmo como presidente e passou a se apresentar como “líder do Brasil”.
A primeira versão foi encaminhada a jornalistas pelo influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro que vive nos Estados Unidos. O documento utilizava um símbolo nacional adotado após a Proclamação da República, em 1889, e substituído durante o regime militar, em 1968.
Treze minutos depois, Figueiredo compartilhou uma nova versão com o brasão atualizado e a inscrição “República Federativa do Brasil”. Ao encaminhar o arquivo, escreveu: “Versão com brasão correto”.
As mudanças ocorreram no mesmo dia em que Flávio chegou a Miami, acompanhado da mulher e das duas filhas, após deixar o Brasil pela Argentina apesar de uma decisão judicial que o proibia de sair do país.
Além da troca do brasão, a carta passou por uma mudança no trecho em que o senador se apresenta à população brasileira e à comunidade internacional.
Na primeira versão, divulgada por Paulo Figueiredo, Flávio afirmava:
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.”
Posteriormente, o senador publicou o documento em seu próprio perfil na rede social X, utilizando a expressão “verdadeiro presidente do Brasil”.
Cerca de 23 minutos depois, a postagem foi editada. Na nova versão, o parlamentar retirou a referência à Presidência e passou a se apresentar como “líder do Brasil”.
A alteração não modificou o restante das críticas feitas ao resultado da eleição, nem a intenção anunciada de comandar a oposição política a partir dos Estados Unidos.
No documento, Flávio Bolsonaro questiona a vitória de Lula e afirma, sem apresentar provas, que houve fraude no segundo turno realizado no domingo (25).
O senador aponta como principal motivo a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar o horário de votação até as 19h em locais onde as seções eleitorais permaneciam abertas.
“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos”, declarou.
Flávio também afirma que a medida teria permitido a Lula ampliar sua votação de forma irregular e acusa o governo federal de abuso de poder político e econômico durante a campanha.
As alegações, entretanto, não são acompanhadas de elementos que comprovem manipulação dos votos ou alteração do resultado.
Lula venceu a eleição com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, reconheceu a vitória de Lula e afirmou que a ampliação do horário de votação não teve impacto no resultado da disputa.
Segundo os dados apresentados pela Justiça Eleitoral, aproximadamente 34 mil votos foram registrados durante o período de prorrogação, entre 17h e 19h.
O número corresponde a menos de 0,03% dos votos computados e representa uma parcela muito inferior à diferença registrada entre os dois candidatos.
O resultado também foi reconhecido por partidos de diferentes posições políticas, incluindo o próprio PL, legenda de Flávio Bolsonaro.
Missões internacionais de observação eleitoral igualmente avaliaram a votação e a apuração.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) informou que os resultados divulgados pelo TSE eram compatíveis com os dados coletados pelos observadores em campo e declarou não ter dúvidas sobre a integridade das informações oficiais.
O Carter Center, organização norte-americana especializada em observação de eleições, também considerou o processo bem-sucedido e defendeu o respeito ao resultado.
Na carta, Flávio Bolsonaro agradece aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, pelo acolhimento após sua saída do território brasileiro.
O senador afirma que decidiu deixar o país por considerar que poderia enfrentar novas medidas judiciais caso permanecesse no Brasil.
Em outro trecho, nega que tenha fugido e diz que pretende continuar atuando politicamente a partir do exterior.
Flávio também anuncia que pretende apresentar, nos próximos dias, uma estratégia para mobilizar seus apoiadores e liderar a oposição ao quarto mandato de Lula.
“Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos”, afirma.
O senador não detalhou quais medidas pretende adotar nem por quanto tempo permanecerá nos Estados Unidos.
A carta foi divulgada poucas horas depois de Flávio desembarcar em Miami, na Flórida, na manhã desta quarta-feira (28).
O parlamentar deixou o Brasil na noite de terça-feira (27), acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, e das duas filhas.
A família atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na Argentina, às 22h50. Segundo a imprensa, Flávio utilizou um passaporte italiano na passagem pela fronteira.
Depois, embarcou em um avião particular Gulfstream G400, operado pela empresa argentina Baires Fly, com destino aos Estados Unidos.
A aeronave fez uma escala para reabastecimento em Guayaquil, no Equador, antes de pousar no Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka, por volta das 10h24.
A viagem ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes determinar que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal e permanecesse em território brasileiro.
O senador não apresentou os documentos dentro do prazo estabelecido, e seus passaportes brasileiros foram cancelados.
A decisão judicial foi adotada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e outras irregularidades envolvendo o parlamentar e o advogado Willer Tomaz.
A divulgação da carta marca a primeira manifestação pública de Flávio Bolsonaro após sua chegada aos Estados Unidos.
Apesar de ter se apresentado inicialmente como presidente eleito e de continuar questionando a votação, o senador não apresentou provas que invalidem o resultado reconhecido pelo Tribunal Superior Eleitoral.
As alterações feitas no documento também não modificam a situação eleitoral: Lula foi declarado vencedor do segundo turno e deverá assumir seu quarto mandato presidencial em janeiro de 2027.
Flávio, por sua vez, permanece nos Estados Unidos e afirma que pretende organizar a oposição ao governo brasileiro a partir do exterior.
A Polícia Federal continua acompanhando os desdobramentos da saída do senador do país, ocorrida apesar da restrição imposta pelo Supremo Tribunal Federal.