
O Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), em Goiânia, realizou em janeiro a primeira cirurgia com polilaminina em Goiás. O procedimento foi feito em um paciente com lesão medular aguda, por meio de autorização judicial para uso experimental da substância.
Segundo o diretor técnico assistencial do Crer, Alan Anderson Fernandes Oliveira, a cirurgia ocorreu sem intercorrências e o paciente apresentou evolução clínica positiva. “Foi um sucesso do ponto de vista cirúrgico”, afirmou. Ele ressalta, porém, que o tratamento ainda está em fase de pesquisa e não tem eficácia comprovada.
A polilaminina é um composto produzido em laboratório a partir da laminina, proteína natural do organismo. A proposta é que a substância funcione como uma “ponte microscópica” no local da lesão medular, ajudando na reconexão dos axônios — estruturas responsáveis por transmitir sinais entre o cérebro e o corpo.
O paciente goiano, cuja identidade é mantida sob sigilo, não integra o estudo clínico oficial, coordenado pela pesquisadora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O acesso ocorreu por meio de pedido judicial para terapia experimental.
Em entrevista ao programa Roda Viva, no dia 23, ela defendeu os dados preliminares do estudo, que ainda está em fase inicial e exige cautela da comunidade científica.
A pesquisa com polilaminina está em estágio inicial. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a continuidade dos testes clínicos em humanos em janeiro de 2026. Até agora, apenas oito pacientes participaram do estudo preliminar.
A própria equipe responsável reforça que ainda é cedo para afirmar eficácia. Em lesões medulares agudas, estudos indicam que entre 10% e 30% dos pacientes podem apresentar alguma melhora espontânea, mesmo sem uso da substância.

Entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia pediram cautela e reforçaram a necessidade de seguir todas as fases previstas nos ensaios clínicos.
No Crer, o paciente segue em acompanhamento multidisciplinar. O centro possui linha de cuidado em lesão medular há mais de 12 anos e já registra ganhos funcionais de 10% a 15% apenas com reabilitação convencional.
Apesar do otimismo, Alan Anderson reforça que a polilaminina ainda não é um medicamento aprovado. “Estamos na fase de testar segurança. Depois vem a avaliação de eficácia. Só então pode haver uso clínico amplo”, explica.
Se os resultados forem confirmados em estudos maiores, a terapia ainda deve levar alguns anos até chegar à prática médica regular. Até lá, especialistas recomendam acompanhar o avanço da pesquisa com expectativa — e prudência.